ATÉ ONDE VAI OS LIMITES DOS PERSONAGENS EM SEARA VERMELHA?

Uma análise crítica da construção de Marta em Seara Vermelha de Jorge Amado
Sempre disposto a abordar em suas obras o caráter sócio-político, Jorge Amado se detém nos minuciosos detalhes para atender essa necessidade; as suas obras, grosso modo, trazem consigo o tom e as características que elevam o autor às experiências ali descritas. Assim o faz em Seara Vermelha, obra lançada em 1946, mesmo ano em que o autor disputava o cargo de deputado federal pelo Partido Comunista. Na obra, Amado narra as mazelas vividas pelos sertanejos nordestinos que lutam para sobreviver diante da seca que os assolavam enquanto migravam do interior nordestino a São Paulo; também, presenciamos os limites ultrapassados por eles que, até antes da peleja, não imaginavam vivenciar tantas desgraças.
Das mazelas vivenciadas pelos personagens, observamos as da personagem Marta, filha de Jucundina e Jerônimo. Desde o gênese da partida em direção a São Paulo presenciamos a personagem envolta e dependente da família à qual, em quaisquer circunstâncias, faria o que fosse preciso para vê-los bem. Não tardou até que a filha do casal protagonista fosse coordenada a ultrapassar os limites dos seus dogmas religiosos-interioranos e tivesse que decidir entre o futuro dela ou o futuro dos pais.
Quando sofre assédio sexual do médico responsável pela liberação dos imigrantes sertanejos, vê diante da violência a oportunidade de propiciar o tão esperado destino às terras paulistas que o pai enfermo tanto lutara. Para isso, ultrapassa a linha, antes nunca cogitada, e resolve ceder aos poucos ao médico que a perseguia em troca da liberação do pai. Infelizmente a decisão traz consequências e Jerônimo, ao descobrir a decisão da amada filha, resolve renegá-la dentre arrependimento e saudade; Marta, dessa forma, é jogada ao relento e destinada a viver sozinha; observando de longe o futuro incerto da família que restara diante da seca.
Percebemos nas obras amadianas esse cerne que guia o leitor a sentir cada parte narrada. Em Seara Vermelha conhecemos personagens fortes que lidam com a dura realidade da seca e da pobreza e que, tristemente, são obrigados a deixarem a certeza do que poderia ser um futuro, para a incerteza do amanhã; algo que Jorge Amado consegue com destreza nos fazer sentir e acompanhar a triste trajetória da família de Jerônimo e Jucundina. E assim, também, foi com Marta, personagem forte que abdica da sua vida para permitir que o pai pudesse continuar tecendo seu tortuoso caminho de morte doentia.