Uma das melhores maneiras de entender o suspense é vê-lo em ação.

Está chovendo lá fora. Acabou a energia. Os carros não estão funcionando. Você está cercado de dinossauros, mas não consegue vê-los. De repente, você ouve um estrondo distante — talvez um trovão, talvez a energia voltando a funcionar. Outro estrondo. O chão treme, as janelas batem. Finalmente, você olha para o copo de água em cima da pia. Ele está tremendo. 

Agora, você tem certeza de que algo está vindo.

Esta é uma das melhores cenas de suspense da história do cinema: a cena do Tiranossauro Rex em Jurassic Park. O que torna essa cena tão memorável? Não é o T-Rex. Existem outras cenas com dinossauros, mas elas não fizeram você sentir aquele frio na espinha como essa. Qual é a fórmula secreta que cria expectativa no público?

Tudo se resume a uma palavra: suspense.

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O que é suspense?

Vamos começar com uma definição literal de suspense. Suspense é a sensação de ansiedade quando você está incerto sobre o que vai acontecer. Se quer criar suspense, com certeza, você precisa de perigo. Mas quais outros elementos você deve considerar?

  • Riscos: se a situação não der certo, haverá consequências terríveis? Como disse o lendário agente literário Donald Maass: “se você não pode responder à pergunta ‘e aí?’, então os riscos da sua história não são altos o suficiente”.
  • Personagens: nos preocupamos com os personagens, de uma maneira ou de outra? Se é o herói, gostamos dessa pessoa o suficiente para querer que ela escape? Se é o vilão, desejamos o contrário? Sem investimento emocional sobre a pessoa passando pelo suspense, não vamos nos conectar com esse sentimento.
  • Tensão: o contador da narrativa estabeleceu o perigo iminente? Esse perigo é verossímil e realista ou, pelo menos, condizente com as regras de seu próprio universo? Pode não existir mais nenhum dinossauro, mas depois que Jurassic Park passou mais de meia hora construindo um cenário crível de certa forma, no qual dinossauros existem, o T-Rex parece muito mais real.

Exemplos de suspense

Suspense é mais que apenas ter um personagem entrado em uma cena com uma arma. Para criar seu suspense de maneira original, você precisa saber como os mestres o desenvolvem. Vamos analisar alguns exemplos fundamentais de suspense que destacam a arte de criar tensão:

Jurassic Park

Vamos entender por que a primeira cena do T-Rex do Jurassic Park funciona tão bem. 

  1. Riscos: se um T-Rex aparecer, haverá consequências terríveis para nossos personagens.
  2. Personagens: não apenas estão presentes duas crianças, mas Alan Grant (paleontologista) e Ian Malcolm (matemático) são dois seres humanos distintos, com personalidades e peculiaridades únicas.
  3. Tensão: mostrando que a água vibra com um único passo de um T-Rex que se aproxima, uma coisa é clara: esse monstro é tão poderoso, não podemos deixar de sentir suspense.

Psicose

Alfred Hitchcock, o “mestre do suspense” no cinema, uma vez disse algo interessante sobre criar tensão:

O mistério é quando o espectador sabe menos do que os personagens do filme. Suspense é quando o espectador sabe mais do que os personagens do filme.

Quando o espectador sente o perigo se aproximando, mas o personagem não, o suspense acontece automaticamente. Considere a famosa cena do chuveiro em Psicose. O público observa o assassino aparecendo, mas Marion Crane está tomando banho e não faz ideia de seu destino. É esse breve momento de horror que cria suspense extremo.

O silêncio dos inocentes

Vamos falar do romance de Thomas Harris, particularmente, um aspecto de seu vilão psicopata, o assassino em série Dr. Hannibal Lecter. Vendo de fora, não há nada com que simpatizar. Ele é um assassino, simplesmente.

Mas Harris não retrata o primeiro encontro com Lecter de forma convencional. Lecter é estranhamente gentil, até educado. Quando a agente do FBI Clarice Starling pede sua ajuda para capturar Buffalo Bill, Lecter concorda, em troca de um pequeno favor. Ele só quer uma janela com vista. 

Tudo bem, não é exatamente emocionante. Mas ao nos dar um vislumbre da humanidade de Lecter, Harris cria o maior terror de todos. Quando Lecter escapa mais tarde, todo o trabalho de construção de personagem feito por Harris—mostrando Lecter como inteligente, charmoso e estranhamento humano—serve somente para torná-lo mais ameaçador. No final do romance, não há como adivinhar seu próximo passo.

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Como criar suspense

O que Jurassic Park, Psicose e O Silêncio dos Inocentes têm em comum? 

Estabelecer uma ameaça plausível

Cada trabalho levou tempo para desenvolver a credibilidade de sua ameaça central. Jurassic Park usa a exposição de como foi possível, pela primeira vez, criar dinossauros na era moderna. Psicose nos leva a um caminho enganoso, fixando no voo de Marion Crane com um envelope de dinheiro, e depois nos leva a conhecer o estranho e solitário Norman Bates. O Silêncio dos Inocentes apresenta Buffalo Bill como seu principal antagonista, e depois revela Hannibal Lecter como um vilão muito mais inteligente e perigoso.

Você não precisa de uma ameaça realista para construir suspense. Se o público acredita que os personagens principais temem a ameaça, é suficiente. Considere Sauron, o vilão de J.R. Tolkien na obra O Senhor dos Anéis. Sauron não é real. Mas seguindo a lógica interna da história, vemos que há apenas uma maneira de derrotar Sauron, o que faz com que o suspense se arraste por todo o mundo.

Escolha algo para “arriscar”

Se o público se preocupa com seus personagens, qualquer ameaça iminente para sua segurança será suficiente para criar suspense. Vamos voltar para a famosa pergunta de Donald Maass: e aí?

Se o personagem principal não atingir seus objetivos, o que acontece de ruim?

Aventuras de espionagem e thrillers psicológicos são famosos por adicionar consequências enormes para as ações dos personagens principais. No filme Thunderball, de Ian Fleming, a missão pessoal de James Bond coincide com impedir que SPECTRE use armas nucleares contra civis inocentes. Em O Cardeal do Kremlin, de Tom Clancy, Jack Ryan trabalha para impedir que os soviéticos desenvolvam uma tecnologia anti-mísseis que mudaria o mundo.

Tire do personagem a opção de voltar

O tamanho dos riscos da sua história de suspense não precisam sempre envolver um vilão que ameaça o mundo inteiro com um desastre nuclear. O suspense na literatura, muitas vezes, apresenta riscos sem recorrer a clichês. 

Por exemplo, em O Sol é para Todos, temos a história do julgamento criminal de uma pessoa. Acontece o tempo todo. Mas a autora Harper Lee atribui um peso cultural e emocional significativo ao julgamento.

O advogado Atticus Finch não está lutando contra um T-Rex, mas O Sol é para Todos ainda é uma grande lição de como criar suspense. Há componentes emocionais em todas as cenas, pois o leitor sabe o que está realmente em jogo: não apenas a vida de um homem está na balança, mas Finch tem que arriscar sua reputação e bem-estar para montar uma defesa jurídica.

Crie a possibilidade de que seu personagem principal pode perder

Em Psicose, a mulher que pensamos ser a personagem principal — Marion Crane — é assassinada no meio do filme. Quando a irmã de Marion chega ao Motel Bates para investigar, o filme já definiu Norman Bates como uma ameaça real e provável. Existe suspense para todo lado, pois o público sabe que ele está à solta.

Mesmo um thriller de espião onde “o mundo está em perigo” pode perder o suspense se o público nunca acreditar que o autor pode permitir que algo terrível aconteça. George R.R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo é famoso por matar protagonistas, ou personagens já estabelecidos na trama. Um personagem de destaque morre no primeiro livro e, pelo resto da série, o público imagina se o seu próximo personagem favorito está prestes a morrer quando está em perigo. 

(Nota: você pode adicionar mais suspense se terminar logo antes de um personagem morrer ou ser resgatado, criando um gancho para o próximo capítulo).

A diferença entre suspense e prenúncio

Suspense é a tensão no ponto crucial de uma história. Em uma situação de suspense, as coisas podem correr muito mal ou muito bem para nossos personagens principais. A gente costuma pensar em suspense como a tensão do perigo iminente. Mas nem sempre é o caso.

Prenúncio, por exemplo, pode adicionar tensão ao enredo sem necessariamente criar suspense. Usando esse dispositivo, o autor meramente aponta para o perigo futuro ou um mistério sem que esse faça parte do presente. Em Adeus às Armas, Ernest Hemingway descreve brevemente uma temporada de outono com uma premonição da morte: as folhas caem cedo. 

Se você quiser mesclar os dois, considere adicionar uma “Arma de Chekhov” ao enredo. A Arma de Chekhov é um recurso frequentemente usado no teatro. Se o cenário da peça apresenta uma arma em destaque na parede, essa arma precisa ser uma parte importante do enredo em algum momento. A presença da arma, por si só, não estabelece a credibilidade de uma ameaça, também adiciona ao clima de suspense—quando será usada?

Como escrever suspense

Sempre que os objetivos dos seus personagens estão em perigo, há a possibilidade de escrever com grande suspense. Pode ser um suspense óbvio — como personagens que lutam contra um espião russo que acabou de puxar uma arma. Ou suspense literário — a ameaça iminente de um personagem perder o respeito por si mesmo. Mas enquanto você der ao leitor um motivo para se preocupar com o desenrolar da história, qualquer cena com uma ameaça imediata vai enriquecer a narrativa. Especialmente se tiver dinossauros.

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