Diário de um Príncipe

Diário de um Príncipe - student project

15 de Novembro 2016

Apesar da origem humilde da minha família, a minha avó sempre me chamou principezinho. Agora que ela morreu, eu sinto a obrigação de me portar como tal pelo que decidi, nos próximos meses, cumprir vários objetivos: perder peso (embora isso não seja importante porque há muitos príncipes gordos), fazer exercício, ser mais culto, arranjar emprego, alugar uma casa só para mim em vez de viver num quarto alugado, deixar de receber mesada dos meus pais.Neste diário vou deixar o registo da minha evolução sócio-cultural e económica.

Hoje abri a boca do meu gato e reparei como é limpa e perfeita. O céu da boca cor-de-rosa e os dentinhos pequenos todos alinhados. O Tigre deixa que lhe façamos tudo e mais alguma coisa, incluindo abrir-lhe a boca e apertar-lhe o focinho. Na realidade, basta que alguém se aproxime do Tigre para ele começar a fazer ronron de uma forma muito intensa.

Estava tão entretido nesta coisa de apertar o focinho do gato e espreitar-lhe para dentro da boca que quase consegui faltar à aula do ginásio. Inscrevi-me só da parte da manhã porque é mais barato mas também porque assim me obrigo a ter horários e a sair da cama a horas decentes. O problema é que se não for às aulas da manhã já não posso lá ir durante o resto do dia. É um esquema tramado mas eu gosto de desafios. Além disso, a Margarida também anda neste ginásio e farto-me de me cruzar com ela quando vou as aulas! Uma motivação extra!

Cheguei uns minutos atrasado mas consegui ir à aula de Zumba. Já tinha passado quase um mês desde a minha última visita pelo que a professora de Zumba fez uma grande festa ao ver-me o que atraiu todas as atenções sobre mim. Senti-me um pouco envergonhado dentro da t-shirt apertada que tinha levado. Não tinha mais nenhuma lavada.

Podem achar estranho um homem a fazer Zumba, mas eu experimentei várias aulas e esta é a que me dá mais gozo. Além disso, a maior parte das minhas colegas são idosas reformadas e tratam-me com imenso carinho. Aqui não sinto aquele olhar de superioridade que às vezes recebo dos machos musculados que passam o dia a elevar pesos na sala das máquinas. São uns convencidos.

É verdade que, na Zumba, ainda tenho bastante dificuldade em acertar nas coreografias mas a minha professora diz que o importante é sentir o som. As músicas, apesar de pirosas, dão-me um certo entusiasmo e às vezes saio da aula a trautear aquelas melodias.

Hoje, depois da aula, encontrei a Margarida no café. Eu estava trautear aquela música da Shakira, “La bicicleta”, - que para mim é o ponto alto da aula de Zumba - e isso deve tê-la deixado um pouco surpresa uma vez que tenho feito um esforço por mostrar alguma elevação intelectual. Saio sempre de cada com livros eruditos que ponho em cima da mesa do café para ela ver o que ando a ler. Ando a apostar nos autores russos: Tolstoi, Dostoievski, etc.

16 Novembro

Tenho de parar de ver a tv shop à noite. Além da fraca componente cultural deste programa acabo muitas vezes por encomendar coisas que não são assim tão baratas e que não funcionam.

Na semana passada rendi-me àqueles eletrochoques que prometem emagrecer. Não são muito práticos porque uma pessoa tem que andar com aquilo colado ao corpo durante um bom bocado.

Tenho feito o tratamento todos os dias, enquanto vejo TV, ou seja, durante umas boas 3 horas por dia. Na zona onde os eletrochoques atuam o meu corpo fica bastante dorido mas não vejo resultados. Nem um músculo tonificado. Vou dar-lhe mais um mês.