Fazemos isso o tempo todo com amigos, quando começamos uma frase dizendo: “Isso é tipo aquela vez que… “, então fazemos referência a uma estória interna, que só nossos amigos conhecem. É uma técnica de comunicação comum e uma maneira de duas partes se relacionarem, referenciando algo que elas compartilham em comum. E funciona.

É usada na literatura, e essa prática se torna a arte da alusão—sim, com “A”. Na arte, as alusões vão um passo além da metáfora e assumem que o leitor ou espectador entende sua referência a um trabalho anterior. Mas o que separa uma alusão de uma simples referência, e como você pode usá-la para aprimorar sua escrita?

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O que é uma alusão?

Uma alusão é uma referência, muitas vezes indireta, a uma pessoa, lugar, evento ou trabalho literário com o qual o público já pode estar familiarizado. 

Se você já ouviu a frase “sorriso do gato de Cheshire”, ela se refere ao gato fictício de Alice no País das Maravilhas. Esse gato de Cheshire não existe, é claro, o que significa que qualquer referência a ele precisa ser uma referência à obra Alice no País das Maravilhas—pelo menos para as pessoas que conhecem o gato a partir da história da Alice.

E é isso que torna a definição de alusão diferente de uma referência clássica. Com uma alusão, há uma suposição de familiaridade. Seu público já deve saber o suficiente sobre a referência em questão para que ele possa inferir o restante do seu significado.

Exemplos de alusões

Calcanhar de Aquiles

“Não deixe esses chocolates perto de mim”, você poderia dizer. “Chocolate é meu calcanhar de aquiles”. Essa referência comum também é uma alusão à literatura clássica, quer você a conheça ou não. 

Como nos diz a mitologia grega, a mãe de Aquiles, Thetis, mergulhou o filho no rio Estige quando era bebê. Mas ela o segurou pelo calcanhar, sem molhar esta parte, fazendo com que seu filho fosse mortal, sem o toque da água somente neste ponto. Durante a Guerra de Tróia, Aquiles se mostrou o maior guerreiro entre os gregos, embora essa vulnerabilidade tenha causado sua queda. 

Usamos a frase “calcanhar de Aquiles” hoje como uma alusão a uma falha fatal em uma figura que seria, de outro modo, heroica — ou, de forma mais simples, uma fraqueza que nos causa problemas. Na verdade, muitas vezes usamos como sinônimos o “calcanhar de aquiles” e a “kriptonita”—a única fraqueza do Super-Homem. Isso também é uma alusão, pois assumimos o conhecimento da história do Super-Homem.

O Velho e o Mar

O livro de Ernest Hemingway, nos anos 50, contou uma história simples de um velho que tenta pescar um Marlim (peixe-espada) gigante. A história era tão simples, na verdade, que os críticos vêm tentando descobrir um significado mais profundo desde seu lançamento. Alguns acreditam que Hemingway deixou dicas sobre o significado mais profundo com essa alusão:

“Ay”, ele disse em voz alta. Não há tradução para essa palavra e, talvez, seja apenas um barulho que qualquer pessoa faça de forma involuntária, quando sente um prego passando pela sua mão e entrando na madeira.

Embora Hemingway nunca diga “crucificação”, observe a suposição de que o público saberá o que significa pregar as mãos de alguém na madeira. A alusão traz tons religiosos simplesmente focando em detalhes específicos, mesmo que Hemingway nunca tenha dito que “Santiago representa Jesus”.

Moby Dick

O risco de usar uma alusão? Pode passar despercebida se não conhecermos a história original. Novamente, um “sorriso de gato de cheshire” não significa nada para alguém que não esteja familiarizado com a obra de Lewis Caroll. Felizmente, você não precisa fazer referência à ficção para fazer uma alusão.

Considere o Pequod, o nome do navio baleeiro em Moby Dick. Essa alusão, muitas vezes, passa despercebida pelos leitores modernos. Mas nos anos 1800, muitos leitores poderiam estar familiarizados com a história da tribo Pequot, nativa dos Estados Unidos. Essa tribo da Nova Inglaterra foi dizimada e, por causa disso, o nome do navio instantaneamente cria um senso de presságio para qualquer pessoa familiarizada com a história original (verdadeira) por trás do nome do navio.

Exemplos de alusões na poesia

Emily Dickinson

A poesia está cheia de tantos exemplos de alusão que podemos perder completamente o significado de um poema, a menos que olhemos com cuidado. Considere este poema de Emily Dickinson:

Toda coberta de insidioso musgo,

De espinheiros, toda inçada,

A pequena gaiola de “Currer Bell”

Na tranquila “Hawort” jaz.

Sem conhecer “Currer Bell”, não há maneira de decifrar o que está escrito. Mas saber que Currer Bell era o nome da caneta da autora Charlotte Brontë muda consideravelmente as coisas. Agora, o leitor tem de se perguntar o que a “gaiola” representa, em vez de deixar passar a ideia.

T. S. Eliot

Quer praticar um pouco a leitura de alusão? O famoso poema de T.S. Eliot “A Terra Devastada” está repleto de alusão poética. Considere apenas uma delas na famosa linha de abertura:

Abril é o mais cruel dos meses

Pode parecer uma metáfora vaga, ao contrário de nossas expectativas de que a primavera seja uma época feliz do ano. Mas existe mais para se descobrir. Os contos da Cantuária, de Chaucer, abrem com esta linha:

Quando abril, com as suas doces chuvas

Eliot parece estar nos preparando para uma visão sua sobre o mês de abril, que não é tão calmo.

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Tipos de alusão

Aparente

Eliot pode usar abril como uma metáfora sem que seja uma alusão aos contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer. Mas dadas outras referências de poesia medieval em “A Terra Devastada” (Eliot frequentemente se refere à Divina Comédia de Dante) e à colocação óbvia de abril na primeira linha, o leitor se depara com uma alusão aparente.

A alusão aparente é aquela que faz referência a uma fonte específica, ao mesmo tempo que parece assumir uma posição contrária. É exatamente isso que Eliot fez com “A Terra Devastada”, imediatamente referindo-se à versão de Chaucer de uma primavera feliz e iluminada. 

Referência casual

Uma alusão pode ocorrer sem que o autor tenha uma intenção profunda e metafórica. Por exemplo, se um personagem dá um sorriso parecido com o “gato de cheshire”, não significa que o personagem seja destinado a simbolizar os gatos de cheshire ao longo de todo o livro. Pode simplesmente ser uma maneira de usar a alusão para descrever a aparência do sorriso.

Referência única

Essa é a forma mais direta e óbvia de alusão. Os exemplos acima — a crucificação de O Velho e o Mar, e o calcanhar de Aquiles— ambos formam referências únicas de um significado para o outro. No entanto, você pode distinguir uma referência única de uma referência casual, procurando a intenção do autor ou autora. 

Por exemplo, se Hemingway estivesse tentando dizer algo mais com O Velho e o Mar e suas alusões religiosas, surge um novo mundo de significados ocultos.

Auto-referência

Vamos nos afastar das alusões na literatura por um momento. Quando Alex DeLarge passa por uma loja de música futurista em Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, você pode notar uma trilha sonora para 2001: Uma Odisseia no Espaço aparecendo no fundo da cena. O que torna isto uma auto-referência? Kubrick dirigiu ambos os filmes.

Uma alusão de auto-referência é qualquer alusão a algo que você já fez. Você verá isso em muitos trabalhos de diretores: em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, uma cena na Área 51 mostra brevemente a localização da arca perdida, tema do filme de 1981, Os Caçadores da Arca Perdida. As obras de Quentin Tarantino também estão cheias de auto-referência, como nomes de marcas (Red Apple Cigarettes, alguém lembra?) que só existem no universo de seus filmes.

Múltiplas referências ou confluência

O que acontece quando você faz várias alusões de uma só vez? Felizmente, o tecido do espaço-tempo não colapsa. Não é assim tão complicado. No entanto, as alusões de “confluência” ou “múltipla referência” são raras, porque são mais difíceis de alcançar. 

Considere o filme de 2017 “Talking of Michelangelo”, “Falando de Michelangelo”, ainda não traduzido para o público brasileiro. A citação é uma referência à poesia de T.S. Eliot, que faz referência às mulheres que vêm e vão, “falando de Michelangelo”, que é, claramente, uma alusão renascentista. Confluências são as bonecas russas dos recursos estilísticos: alusões em alusões.

Alusão corretiva

Uma alusão corretiva é a mesma coisa que uma alusão de referência única, exceto que inverte o fluxo. Em vez de fazer uma alusão que esclarece o significado, uma alusão corretiva pode ir contra ele.

Essa foi uma técnica frequente na série “Família Soprano”, da HBO, na qual os roteiristas queriam destacar a natureza hipócrita dos personagens centrais. Por exemplo, Tony Soprano muitas vezes se queixa do desaparecimento do “tipo forte e silencioso” da cultura americana, incluindo figuras como Gary Cooper. Essa é uma alusão fácil de entender. Mas os roteiristas adicionam um toque a mais ao mostrar a personalidade de Tony, e como está repleta de raiva e fúria. Apesar de seus protestos, ele é qualquer coisa menos o tipo forte e silencioso.

Torne-se um mestre da alusão

O conceito de escrita é simples. Você tem uma ideia. Você tem um leitor. Você quer que o leitor entenda sua ideia em uma linguagem simples. Todo dispositivo literário que você usar é, simplesmente, um instrumento para resolver esse problema central.

Nesse sentido, as alusões são ferramentas altamente potentes para sua caixa de ferramentas da escrita. Eles permitem que você diga ao seu leitor: “Isso é tipo aquela vez que… “, como se estivesse falando com velhos amigos. Você pode estar contando uma nova história, mas ao apontar para uma história antiga, suas ideias farão mais sentido. 

Aprenda a enfeitar suas alusões com sutileza e você não encontrará nenhum problema em no entendimento de seus temas. Feita da forma correta, ela traz ainda mais mágica que um mestre ilusionista. Você será um mestre alusionista.

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