Quando pensamos no que define o processo criativo, o que geralmente nos vem à cabeça é uma sequência completamente subjetiva e nebulosa de etapas imprevisíveis que só as pessoas criativas e com um dom são capazes de entender. Como se fosse um tipo de código secreto ao qual apenas aspirantes a Van Gogh, Banksy, Picasso, Warhol e Rodin têm acesso.

Embora essa seja uma maneira romântica de pensar sobre o assunto, a noção de que o processo criativo se reserva apenas àquelas pessoas entre nós com uma “criatividade inata” é bastante restritiva. Na realidade, todos somos criativos, inclusive você. Trata-se apenas de uma questão de entender as etapas do modelo do processo criativo e aprender a desfrutar desse néctar.

O que é o processo criativo quando falamos de arte?

De maneira simples, o processo criativo é a forma como as ideias, a arte ou o pensamento criativo ganham vida. Ao contrário do que se acredita popularmente, esse processo criativo baseia-se em uma estrutura. Ele começa sempre pela etapa de reunir inspiração e culmina no produto final. Embora as etapas intermediárias do processo criativo possam mudar de pessoa para pessoa, já que todos temos um jeito único de abordar e processar a criatividade, há também uma estrutura norteadora que pode ser bastante útil.

Acreditamos que se familiarizar com as etapas do processo criativo permite que você acesse mais facilmente suas melhores ideias. Isso permite a você ter mais liberdade, em termos de criatividade, para descobrir o que lhe agrada ou desagrada e permite mergulhar fundo nos cantos mais remotos da sua imaginação. Ele encoraja você a deixar de lado ideias que não funcionam, sem que seu ego saia ferido e, mais importante, a se aproximar de si e criar algo de que se orgulhe. 

As cinco etapas do processo criativo

O modelo do processo criativo é tradicionalmente dividido nas cinco etapas de criatividade a seguir: preparação, incubação, insight, avaliação e elaboração (embora o modo como cada pessoa criativa defina cada uma das etapas e, ocasionalmente, os nomes dados a elas possam variar). Esses termos em si provavelmente não ajudarão muito seu espírito criativo (eles de fato soam um tanto áridos), mas detalhamos cada um deles aqui para ajudar você a entendê-los e a se relacionar com eles com mais facilidade.  

1. Preparação: a fase da inspiração

Qual seria então a primeira etapa do processo criativo típico? A preparação. Embora o termo possa fazer você se sentir como se precisasse se preparar para uma prova tenebrosa que fará pela manhã, a primeira etapa do processo criativo é onde nascem suas melhores ideias. 

Encontrando inspiração no Instagram
Encontrando inspiração no Instagram

Pense nessa etapa como se estivesse iniciando uma viagem estimulante até o espaço criativo que mais lhe fascina. No mundo moderno de hoje, isso pode incluir explorar uma hashtag específica no Instagram: #guache, #lineart, #musicaclassica, #nocavalete ou #primeiroesboço. Também pode incluir mergulhar fundo em autobiografias de artistas que inspiram você, visitar os sites e galerias virtuais de artistas, assistir a documentários sobre o tema, ouvir música ou ler poesia.

Em alguns casos, o modo como você “se prepara” pode nem mesmo estar relacionado com seu meio específico. Talvez sua preparação inclua tomar café ao ar livre, desbravar a natureza ou observar as pessoas. Aonde quer que você chegue durante essa etapa, comprometa-se integralmente com ela e se entregue de verdade. Faça anotações. Observe o que (e como) essas outras pessoas criativas criam, anote ideias conforme elas ocorrerem, as cores que inspiram você, os sons que emocionam e as palavras que pegam você de surpresa. 

2. Incubação: absorvendo e processando

Agora é hora de deixar todas as informações e inspirações que você acabou de absorver irem mais fundo. Nessa etapa do processo criativo, você pode pensar que não está fazendo nada de fato, já que é seu subconsciente que fará todo o trabalho. Nesse sentido, essa etapa do processo criativo se assemelha a deixarmos um filé marinando durante a noite em uma suculenta combinação de sabores. Aos mais desavisados, a carne está apenas ali repousando, mas na realidade, uma transformação deliciosa está ocorrendo.

A conexão entre a criatividade e o bem-estar

Pequenos passos para praticar a criatividade hoje

Ao contrário do que acontece com o filé, esse período de incubação criativa pode levar um pouco mais de tempo. Sim, para algumas pessoas, pode ser como se uma lâmpada se acendesse imediatamente e as compelisse a agir, mas para muitas outras, leva horas ou dias para que isso aconteça. Em alguns casos, pode levar meses ou até mesmo anos para absorvermos e processarmos totalmente a criatividade. O tempo que você precisará passar nessa incubação não é motivo algum para vergonha, por isso, não se sinta pressionado. É muito importante não apressar essa etapa, e dar-se tempo até que possa seguir para a próxima fase. 

3. Insight: o momento “eureca”

Na etapa anterior, mencionamos uma luz que se acende e lança a pessoa em um frenesi criativo o qual ela não conseguiria suprimir. Esse momento é tradicionalmente conhecido como a etapa do “insight” do processo criativo, ou o que algumas pessoas jocosamente apelidaram de momento “eureca!” (Essa também é por vezes denominada a etapa da iluminação no processo criativo.)

Essa é a etapa com a qual estamos, sem dúvida, mais familiarizados, e a que erroneamente presumimos ser a primeira etapa. Talvez seja essa premissa incorreta que faz com que muitas pessoas concluam que é preciso ter uma criatividade ou um dom inatos para poder chegar a esse ponto. Como já vimos, a realidade é que pode levar dias, semanas, meses ou até mesmo anos para que a inspiração ocorra. Isso se aplica até mesmo aos maiores artistas que já viveram. 

 Outra falsa suposição é que esse momento eureca sempre ocorre de maneira estridente e catártica. Embora ele às vezes ocorra de fato como uma centelha inconfundível e norteadora de inspiração, é importante notar que muitas vezes a etapa da iluminação no processo criativo se assemelha mais a um sussurro discreto e contemplativo. Também pode não acontecer de forma tão cinematográfica como gostaríamos de acreditar que fosse. Muitas pessoas afirmam que essa inspiração surge ou se desenvolve quando elas menos esperam, ou seja, enquanto estão preparando o jantar, conversando com amigos ou dobrando uma pilha imensa de roupas lavadas. Argumenta-se que fazer algo que não requer muito do cérebro dá ao seu subconsciente tempo para que ele trabalhe. 

 Independentemente de como sua ideia emerja “do subconsciente para o consciente”, essa é a etapa mais rápida do processo de desenvolvimento criativo e sinaliza que você já pode mergulhar de vez na quarta etapa. E ela pode ser um tanto diferente do que você espera…  

4. Avaliação: colocando suas ideias à prova  

Sem querer trazer más notícias, mas o processo de desenvolvimento criativo seria irreal sem reconhecer que nem toda ideia criativa é uma ideia excelente (ou mesmo boa) e que vale a pena seguir. É nessa fase que você de fato vai mais fundo, por mais delicado e doloroso que isso possa ser para o seu ego, e se pergunta se realmente vale a pena trabalhar com uma ideia. 

Ao invés de encarar isso como algo que pode acabar com suas esperanças e seus sonhos, veja como uma oportunidade de colocar à prova suas ideias artísticas, frutos do processo criativo. Elas se sustentam ao passar pelo crivo do pensamento crítico, das perguntas honestas e, em alguns casos, da avaliação de seus colegas?

Falamos antes das perguntas mais importantes que artistas devem se fazer antes de seguir em frente com um projeto. Algumas dessas perguntas incluem as seguintes:

Perguntas a fazer antes de começar um projeto 

  • Isso já foi feito antes?
  • Como vou fazer isso de uma maneira que ainda não tenha sido feita?
  • Vou de fato gostar de fazer isso?
  • Por que essa ideia ou projeto importa para mim especificamente?
  • Estou me desafiando?

 Além de olhar para dentro, pedir um feedback honesto das pessoas em quem você confia (sejam elas criativas ou não) também pode se mostrar algo valioso nessa etapa do processo criativo. A colaboração muitas vezes permite desenvolver suas ideias de formas significativas.

5. Elaboração: colocando as ideias no papel (por assim dizer)

Rumo à última etapa do processo criativo: depois que sua ideia de projeto tiver passado por essa avaliação, finalmente é chegada a hora da “elaboração”. Ou, para usar uma terminologia mais fácil de entender, chega oficialmente a hora de colocar as ideias no papel, na tela ou na argila. É nessa fase que você ativamente criará algo e dará vida à sua ideia.

Do curso ministrado por Andy J. Pizza, da Skillshare Original: Transforme a criatividade em carreira
Do curso ministrado por Andy J. Pizza, da Skillshare Original: Transforme a criatividade em carreira

Para muitas pessoas, essa etapa final do processo criativo pode levar a mesma quantidade de tempo que todas as outras quatro juntas (ou mesmo ainda mais tempo). Normalmente, ela envolve muitas horas de brainstorming quanto à melhor abordagem e muita experimentação, a fim de descobrir o que funciona e o que não funciona. Você talvez acerte de primeira (e algumas pessoas realmente conseguem esse feito!), mas o mais provável é que crie algo, não goste e dê alguns passos para trás ou comece de novo totalmente do zero. Você pode precisar repetir esse processo até que tudo esteja perfeito aos seus olhos. 

Para não desanimar durante essa etapa, lembre-se das diversas tentativas “falhas” de esboços, esculturas e páginas iniciais criados por grandes artistas e que acabariam gerando uma obra-prima ainda apreciada séculos depois. Espere suor, lágrimas e alegria reais como fruto dessa quinta etapa do processo criativo. Abrace isso.

Conclusão

Agora que você entende melhor as cinco etapas do processo criativo, esperamos que sinta menos pressão para criar algo que seja transformador e impressionante do nada. A arte, independentemente do meio, muito raramente acontece dessa maneira. Quando sentir frustração, lembre-se de que o processo criativo é uma jornada lenta e constante, que envolve muito mais preparação, tempo e autorreflexão do que a maioria das pessoas percebe. (Talvez ele devesse ser chamado de “processo de pensamento criativo.”) Mergulhe na inspiração, permita que sua mente e seu corpo a absorvam, se jogue naquele momento “eureca!”, questione-se mesmo quando for difícil e depois parta para sua próxima criação.  

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